Psico-Socializando por Henrique Weber

MADONNA E O IDENTITARISMO LGBT

Li o artigo “Madonna I e II (Animalidade e artifício; A Vênus das ondas de rádio)”, do Livro Sexo, Arte e Cultura Americana”, da ensaísta Camille Paglia, onde a autora analisa o trabalho da artista como uma antítese do feminismo acadêmico estadounidense. Paglia se apresenta como uma biógrafa de Madonna buscando responder aos críticos da cantora. Não aprofunda nada, dando uma qualidade ao texto equivalente aos folhetins de jornal, e realça o problema do biógrafo, a idealização do seu objeto de estudo. Busca colocar Madonna na posição do “verdadeiro feminismo norte-americano”.

O feminismo da classe trabalhadora está atrelado aos problemas econômicos, sociais e culturais de cada lugar, cidade ou país, e me faltam elementos para compreender quais são os problemas centrais da mulher nos EUA. Porém, está claro que Madonna representa um “feminismo burguês”, dentro da problemática vivida pela classe média de lá. Pois Paglia não trouxe nada além da sensualidade de Vênus, representada pela artista, que enfrenta com o seu paganismo a religião conservadora. Sim, Madonna exala sensualidade e rompe com a binomia de gênero, trazendo uma estética andrógina e travestida, e que sabe desempenhar muito bem diante das lentes da fotografia e da arte cinematográfica. É uma artista do seu tempo, dança de maneira inebriante e hipnotizadora, e sua arte erótica é que cria identificação com o público LGBT brasileiro. Busca romper com a iconografia religiosa se apresentando como uma mulher fálica, um travesti dominador ou uma mulher submissa a orgia. Mas, longe de querer se comparar a Dioniso, como Paglia faz. Ela é uma figura delicada diante das forças ctônicas e disruptiva do deus pagão.

Sua representação não ultrapassa a sexualidade e de nada vale para a mulher trabalhadora que vive outros problemas sociais. A mulher brasileira vive sua condição marginal tendo que conviver com a violência diária: 90 % delas já sofreram ou presenciaram violência em locais públicos no período noturno, aponta uma pesquisa dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva. A mulher trabalhadora é relegada a viver na periferia e trabalha dobrado, em três turnos diários, para sustentar sozinha os seus filhos. É lógico que vai chegar e sair do trabalho no escuro, de manhãzinha ou à noite. Ela ganha menos que o homem pelo mesmo trabalho, sofre violência doméstica e as morbidades de uma vida exaustiva, passa fome para os filhos comerem. E este videoclipe a Madonna não representou. Porém, estas histórias estão registradas nos milhares de prontuários dos serviços de assistência social, de saúde, das escolas e das delegacias de polícia. Madonna está muito longe de ser um ideal de mulher, porém é incontestável que é uma grande artista para o feminismo burguês.

Agora, por que o movimento LGBT daqui, que chamamos de identitarismo, adota Madonna como modelo? Paglia deixou bem claro o que a diva denuncia: “o puritanismo e a sufocante ideologia do feminismo americano, (...) ensina as jovens a serem plenamente fêmeas e sexuais quando ainda tem o controle de suas vidas” (página 16). Aonde tem puritanismo no Brasil? Será que o LGBT faz alguma conexão daquilo que Madonna critica com os problemas do feminismo ou do povo brasileiro? No Brasil, ensinar a mulher a ser fêmea e sensual na terra do samba, onde as músicas e as letras sim, representam a condição da mulher trabalhadora... será que precisamos de Madonna?

O traço de identificação do movimento LGBT com a artista é a sexualidade, o gênero e o domínio dos corpos eróticos. Embora o discurso LGBT traz muito o signo da exclusão, pouco aborda os problemas do capitalismo e do Estado Burguês, que segrega este público à marginalidade, destituído de reconhecimento e valor social. O LGBT quando procura dar visibilidade a causa, a primeira coisa que aparece é sua identidade de gênero e sexual, seu caráter fenótipo, não a extrapola. A causa LGBT não pode estar dissociado da luta de classe e da exclusão à participação da construção do Estado e do acesso as suas instituições. Por que o movimento não adentra na esfera econômica e social? Ou porque se consome a indústria cultural de massa (em que Paglia deixou bem claro que Madonna faz parte), ou se copia a ideologia do feminismo americano.

O signo da exclusão é evidente e correto, porém é preciso se somar aos outros movimentos sociais e revolucionários por causa da vida dura que os governos impõe a classe trabalhadora em detrimento da economia estatal, a serviço de grupos financeiros e do agronegócio, que enriquecem sem qualquer contrapartida, ou sem qualquer compromisso com a sociedade brasileira.

Nesse mundo tão sexualizado, é evidente que Madonna não é atual e não deixa legado. Ficam as perguntas: por que Madonna segue sendo um ícone? Em que ela representa a mulher brasileira? O LGBT segue qual feminismo?

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