Psico-Socializando por Henrique Weber
AMOR À PRIMEIRA VISTA: Eros e Psiquê
Amor à primeira vista, eis um tema batido, talvez porque seja tão romantizado nas novelas ou TV. Acredito que mais interessante seja pensá-lo como amor impossível ou proibido, quase sempre tomado por uma dimensão trágica, com final feliz ou não. É consenso que existe Amor à primeira vista, porém medimos essa experiência pelo resultado e deletamos seus processos. Como pacificar o desejo quando ele arde no peito, quando um fogo acende em labaredas altas, a ponto de cegar?
O olhar, este farol do Ser, perde os sentidos quando o coração é que está tresloucado. Romeu e Julieta foram consumidos pelo desejo, e ela desafiou a leis sociais do matrimônio, enfrentando seus pais e se casando em segredo. Depois que seus planos fracassaram e foi forçada a se casar com o Conde, pretendente de alta qualidade, Julieta se recusa... e resiste. Certamente, não se deixou influenciar pela razão ou prudência, ou pelas regras sociais.
Outro caso que podemos pensar é o de Bentinho. Ele desconfiava que Capitu o estivesse traindo com seu amigo Escobar. Bentinho, tomado pelo ciúmes, só enxergava o desejo insuportável de vê-la nos braços do amigo. Buscava indícios, estudava os sinais. Um coração atormentado, em rescaldo, a fogo baixo, que mantinha aceso um olhar vigilante. Talvez Capitu tivesse admiração por Escobar, ou imaginasse estar no lugar de sua esposa, que era uma mulher fantástica, exemplar.
Também me vem à mente o caso do psicanalista Carl Gustav Jung com sua paciente Sabina, que, de uma relação terapêutica, o coração foi tomado por um envolvimento emocional sorrateiro e silencioso, a ponto de atravessar os limites do permitido.
Por proximidade, qualquer um pode relembrar algum caso de amor proibido dentro da família, do trabalho ou de alguma instituição. Casos que envolvem diferenças de classe, posição social, ou mesmo que vão de encontro com as leis.
Na mitologia grega, Zeus simboliza a Lei, ele é quem bota ordem quando a sociedade do panteão fica apavorada diante de conflitos abertos. Eros é um desses deuses arruaceiros de quem Zeus precisa se ocupar. Conhecido também como Cupido, sai por aí flechando o coração de homens e mulheres, causando enorme confusão. A vida dá uma guinada quando vamos atrás dos nossos desejos. Desfazemos o que construímos para refazê-los em outro lugar, tudo de novo.
Começa com uma centelha... muitas vezes nos momentos em que estamos desarmados, aquela crava o peito e acende o olhar. Os sentidos se perdem, e o que está às voltas vira fundo; o amado se destaca. Olhamos tanto para este objeto do desejo que cegamos... e dali labirintamo-nos.
Algo divino incorpora para fazer sentido: será que é Afrodite? Douramos o perfil do amado e nada mais vemos que podemos chamar de real. Chamamos, então, de ideal.
Amor à primeira vista vem para organizar algo oculto, que deveras, estivera latente. Acelerar processos... desencorajados ou adormecidos. Esse desejo inconsciente marca presença através do pulsar. A Alma, inquieta, perde o sono.
O próximo encontro parece casual, mas é conexão, estudo, cálculo erótico. Braços agitam ao nada, agarrando o corpo imaginário à sua frente, a boca se salta pedindo beijinhos. O vento sopra: eu te amo (em sussurros)... eu te amo... que é para ninguém ouvir.
Acordo! À minha volta está tudo desorganizado: eu mudei meus horários, troquei meus fluxos, deixei de esbarrar com os meus próximos, estou com planos de navegar por mares nunca antes navegados. E a música da rainha que personifica a morfina, Rita Lee, a Deusa do Sono Profundo, não saí de minha cabeça, fica repetindo e repetindo... “Venha me beijar... Doce Vampiro... na luz do luar”. A noite chega... e com ela o desespero de uma felicidade adormecida, “ferindo e curando as feridas”.
Meus dias são de guerra. Pulo pra trincheira. Quando saio, faço de peito aberto para lutar por um Amor à primeira vista. Como apaziguar esse desejo? Quem pode me ajudar: Romeu, Capitu, Dr. Jung? Talvez ... meus caros leitores... talvez, só a Lei.
Do outro lado está Psiquê, com sua beleza única e complexa. Alvo da inveja, ela é remetida a objeto da paixão (destrutiva). Tem sua vida simples e serena, que se deixa influenciar pelo outro, pelas intrigas familiares, tornando-a mais confusa. Vive as ambivalências de seu coração, aplica umas mentiras de vez em quando, busca o equilíbrio no fio reto do destino. Tem sua rotina, seu hábito e habita os mesmos problemas. Ora sente tristeza, ora confusão, vive a contradição. Tem boletos pra pagar, filhos pra sustentar e gente chamando lá fora. São uma multidão de vozes que se entrecruzam nesse novelo cerebral. Muitas vezes não tem tempo para namorar, apesar de que percebe os olhares quando é notada.
“O que ele quer... que eu quero?” A falta: há sempre um querer que não sabemos, mas que podemos comparar com aquilo que o outro quer. Talvez, podemos pensar que todos querem a mesma coisa. E, quando me querem? Não!
O Bom torna-se Monstro... O soldado agoniza em seu catre quente... Seu quarto é uma nave, celúla única, solta a se perder num espaço sem gravidade. Sofrimento se arrasta para o Inferno. Lá, percorre-se um rio extenso, diante de um mundo sombrio. Dor. Mutilação. Dilaceração. Penitência. É preciso coragem para seguir caminhando. Nesta trilha, vai-se separando o joio do trigo, refletindo, através do percurso nas barcas de Hades, sobre os antecedentes que o fizeram chegar até aqui: algo deu de muito errado. Paga-se um tributo a cada barca, é preciso caminhar...
Superando o medo e reencontrando com a beleza, estive com Perséfone, que me entregou uma caixa, pedindo para não abrir. Enquanto eu estava deprimido, conseguia ter uma clareza no olhar. Não havia fome, já estava acostumado ao frio. Talvez, tenha sido o momento mais lúcido da minha vida. Mas retomei as forças, e com elas, a fome... e a curiosidade. Sabia que não era prudente abrir a caixa: caí num sono profundo, novamente...
Pedro era gerente de uma empresa de segurança. Ele sempre teve muito zelo com o seu trabalho, que exigia muita discrição. Seus superiores precisavam que, no andar de baixo, pudesse ter alguém que garantisse a máxima confiança, alguém que pudesse entregar erro zero. Todos os trabalhadores tinham que passar por um rigoroso treinamento, e a última etapa era com Pedro.
Estela havia se candidatado a uma vaga de Recursos Humanos. Ela entrou na sala e a entrevista começou. Pedro perguntava, e Estela parecia nervosa, travada. Ele poderia apontar aí um problema, mas, na sua experiência, resolveu observar um pouco mais. Ela estava enredada na sua dificuldade de se expressar e, quando voltou os olhos aos de Pedro, seu coração acalmou.
Ele, acostumado a dar entrevistas, ora sustentava o olhar, ora seguia o roteiro, e Estela voltava a se atrapalhar novamente. Parecia tropeçar nas palavras, e tudo se aquietava quando o olhar se fixava no dele.
Pedro era puxado para este encontro a ponto de ver a íris dela se abrir e fechar. A luz dos olhos de Pedro penetrava fundo os olhos de Estela. Um silêncio reconfortante pairava; parecia que a sala ganhava contornos de uma textura aveludada. Parecia que o tempo eram daqueles de férias no campo. Estela tinha uma certeza, e esta não poderia sair de sua boca. Pedro, experiente, podia encontrá-la: aquela mulher esperava por ele por toda a vida e estava pronta para entregar a paz de uma vida cheia de batalhas. A Luz trazia a informação: “tanto te aguardei, esse é o teu retorno, eu vou cuidar de ti”.
Pedro mais uma vez desviou o olhar e compreendeu que aquela mulher estava gostando dele, e a entrevista acabou. Em tese, Estela seria eliminada, incapaz de assumir aquele cargo. Certamente, teria uma vaga para ela em outra equipe, mas Pedro convidou-a a vir para a etapa seguinte.
Pedro passou o restante da semana bem; tinha flashes de Estela, do seu olhar. Já para ela, foram dias de muitas incertezas. No começo da semana seguinte, ele, na sua rotina, certificou-se de que havia marcado a entrevista com Estela. Ela veio preparada, entrou na sala e respondeu com certa desenvoltura às perguntas do gerente. Porém, começou a faltar-lhe as palavras. Tentou evitar o olhar dele, falando com a cabeça baixa, mas, quando os olhares se tocaram, a cabeça ergueu-se altiva e ela se transformou numa mulher forte e decidida... Pedro bem que resistia... mas cedeu ao olhar da fêmea. Sustentou como homem que não esmorece, e foi dragado para uma viagem estelar, celestial!
Nesta viagem... a cada estação... Pedro parecia perguntar metaforicamente sobre eles, confirmando aquele encontro de almas. Estela era firme em responder afirmativamente, como se tivesse vindo do futuro para prestar contas com o passado. Ele não quisera voltar ao seu dever burocrático; ambos ficaram tempo se olhando em silêncio... parecia que chegara a hora de um encontro marcado na eternidade.
Passado a semana, Pedro começou a construir um sonho onde daria uma vida nova a Estela: viagens, restaurantes, bares dançantes, uma noite com espelhos em tempo infinito. Estela vagava pelos departamentos da empresa à procura de Pedro, e comentava com suas colegas coisas sem nexo: ela não sabia para onde ir e nem que horas eram... Pedro soube que Estela o procurava feito barata-tonta; foi a senha que faltava para traduzir, com a mais absoluta certeza, que “isto era Amor à primeira vista”. Seu coração batia forte, ria do nada, vibrava como se tivesse vencido uma grande etapa na vida de gestor. Ele foi para casa e organizou tudo com muito carinho, pensando em como ela gostaria que fosse o vosso cantinho, cada detalhe, como quem fosse subordinado de Estela.
E, então, segunda –feira, ele correu para a sua agenda para confirmar o dia e a hora da entrevista. Pedro tinha uma proposta a fazer: dar-lhe uma casa, pagar as contas dela, tirar um tempo para viajar, plano de saúde, cursos e cuidar do filho da nova anfitriã, em troca de outro emprego, que certamente conseguiria arranjar para ela.
Chegada a hora, Pedro tomou a palavra: “Estela... agora quem vai falar sou eu... soube que você me procurou e o quanto que estava ansiosa para me ver... acontece que você não saí da minha cabeça desde o primeiro dia que eu te vi. E isto nunca me ocorreu antes... mas percebo que você é a mulher da minha vida... você quer viver comigo?”
Estela respondeu que não, que havia procurado ele sim, mas para saber o dia da próxima etapa do treinamento.
Ele não estava convencido disso e insistiu, porque sua análise técnica não falhava. E ela se manteve intacta, firme como uma rocha. Pedro... foi se dando conta que havia se enganado, pois naquele dia, Estela se apresentava diferente. Realmente, os caminhos pelo infinito dos olhos dela estavam opacos. O gerente foi se convencendo de que só a vaga era o que interessava para a candidata.
Repentinamente, a imagem de Estela se transformara: sua boca jovial trazia o maxilar rugosa de uma velha; seus cabelos negros e olhos escuros traziam o peso de seu espírito; seu semblante era de alguém vingativa, não exprimia confiança. Nada se parecia com aquela amante feliz, grata e dedicada que ele tanto projetou.
Pedro viu a burrada que estava fazendo, o erro que cometera, e pediu desculpas a ela. Procurou organizar a bagunça e se despediu.
No dia seguinte, Pedro havia pedido demissão. Ele foi visto por Estela do alto da janela de seu novo cargo, enquanto seus olhos seguiam os passos dele, indo rumo ao norte, por um caminho que cruzava com um trilho de trem. Ela murmura baixinho: “Desculpe, doutor, eu menti”.
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