Indústria calçadista projeta reação no segundo semestre e pode crescer até 1,4% em 2026

Abicalçados aponta recuperação gradual após início de ano marcado por queda no consumo interno e nas exportações.

15/04/2026

Por @ClicdoVale | contato@clicdovale.com.br
Em Notícias Gerais

A indústria calçadista brasileira deve ter um 2026 de recuperação gradual, especialmente na segunda metade do ano. Após um primeiro trimestre desafiador, com retração no consumo doméstico e nas exportações, a projeção da produção nacional varia entre queda de 1,2%, em um cenário mais pessimista, e crescimento de até 1,4%, no cenário otimista.

Na média, a expectativa é de estabilidade em relação a 2025, com leve alta de 0,1%, alcançando 848,3 milhões de pares produzidos ao longo do ano. Os dados foram apresentados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) durante o evento on-line Análise de Cenários, realizado na manhã desta quarta-feira, dia 15 de abril.

A apresentação foi conduzida pela economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados, Priscila Linck, e pelo doutor em Economia Marcos Lélis, que analisaram o cenário econômico brasileiro e mundial e os reflexos diretos sobre o setor.

Conforme os especialistas, o ambiente internacional ainda inspira cautela. Entre os principais fatores de incerteza estão o conflito no Oriente Médio, com impacto sobre custos produtivos e logísticos, o desaquecimento do consumo nos Estados Unidos e a pressão inflacionária no mercado norte-americano, que mantém os juros em patamares elevados.

Segundo Lélis, esse contexto também dificulta a redução dos juros em outros países, inclusive no Brasil, contribuindo para o alto endividamento das famílias. Dados citados no evento apontam que o nível de endividamento dos brasileiros chegou a 80,2%, o maior da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Já a inadimplência entre a população adulta alcançou 47,9%, conforme levantamento do Serasa.

Ainda de acordo com Lélis, 29,3% da renda das famílias brasileiras está comprometida com dívidas, sendo 10,5% apenas com juros, o que limita a capacidade de consumo mesmo diante do avanço da renda.

No setor calçadista, 2025 já havia encerrado com retração de 1,9% na produção, totalizando 847,5 milhões de pares. O resultado foi impactado principalmente pela queda das exportações no segundo semestre, reflexo das tarifas impostas pelos Estados Unidos e do enfraquecimento do consumo na Argentina, dois dos principais destinos do calçado brasileiro.

O segmento mais afetado foi o de calçados casuais e sociais, mais dependente do mercado externo. Apesar disso, os embarques cresceram 6,7% em 2025, puxados pelo bom desempenho da primeira metade do ano. No mercado interno, a produção destinada ao consumo doméstico recuou 3%.

Priscila Linck destacou que as importações totais de calçados nos Estados Unidos caíram 8% em 2025, o que representa 170 milhões de pares a menos consumidos naquele mercado. No primeiro bimestre de 2026, a retração foi ainda maior, de 12%, equivalente a 49 milhões de pares a menos.

Na Argentina, embora as importações tenham crescido 38% em 2025, o movimento perdeu força a partir da segunda metade do ano. Nos dois primeiros meses de 2026, houve queda de 15,9% nas importações totais do país vizinho.

Outro fator de pressão sobre as exportações brasileiras é o avanço dos embarques chineses para mercados estratégicos. Em 2025, as exportações chinesas recuaram 2%, o que significou 186 milhões de pares a menos. Já no primeiro bimestre de 2026, os embarques do país asiático cresceram 12%, recuperando parte das perdas.

Segundo Priscila, as tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos desorganizaram o comércio internacional, fazendo com que parte dos produtos chineses antes destinados ao mercado norte-americano fosse redirecionada para países da América Central, América do Sul e África. Em 2025, as exportações chinesas para a América do Norte caíram 19%, enquanto cresceram 4,1% na América do Sul, 2,2% na América Central e 14,2% na África.

Mesmo com o cenário de dificuldades, a expectativa da Abicalçados é de melhora ao longo do segundo semestre. No primeiro bimestre de 2026, a produção brasileira de calçados caiu 11,1%. Para o primeiro trimestre, a projeção é de fechamento com retração de 6,8%. Já no segundo trimestre, a queda estimada é de 4,6%.

A perspectiva, no entanto, é de retomada gradual tanto do consumo interno quanto das exportações na segunda metade do ano. Um dos fatores que pode favorecer esse movimento é a tarifa adicional de 10% aplicada pelos Estados Unidos sobre as importações, que, segundo a entidade, recoloca o Brasil em condição de igualdade tarifária com seus principais concorrentes naquele mercado.

Com isso, a indústria calçadista pode encerrar 2026 com desempenho melhor do que o registrado no início do ano. Ainda assim, as exportações brasileiras devem fechar o período com queda entre 4,1% e 8,9%. Já o consumo doméstico deve crescer entre 0,5% e 3,1%, ajudando a sustentar a estabilidade da produção nacional, hoje voltada majoritariamente ao mercado interno, que responde por 88% do total.

O evento Análise de Cenários é promovido pela Abicalçados duas vezes por ano, geralmente nos meses de abril e outubro. Nesta edição, os patrocinadores foram Sicredi, na cota ESG, Kisafix e Sicoob, na categoria prata. A iniciativa contou ainda com parceria do Sebrae e apoio da ApexBrasil.

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